Capítulo 01

...

Tinha ido apenas ao mercadinho do bairro comprar algumas coisas que precisava. Era um final de tarde daqueles típicos e sem graça de sábado. Um céu pálido e com belos desenhos formados pelas nuvens no céu. Uma brisa leve e aromatizada com o perfume de café na vizinhança.
Caminhar um pouco me faria bem pra sair um pouco do apartamento. A preguiça estava tomando conta de meu corpo e espírito. Seria agradável respirar um pouco. A rotina de trabalho e casa estava sendo cansativa por demais.

Pão, chocolate, coca-cola, sabonete, creme dental. Tudo na cestinha de compras. Uma volta mais pra ver se não precisava de nada além. Vamos pra casa.

- Pois é menina. Pra tu veres como são as coisas. Sábado a noite, sem paciência pra festas e paqueras, agora é assim. Uma lasanha básica, vinho e uns filmes e ficar em casa.

Seguiu-se uma risada alta dessa conversa que havia acabado de ouvir entre aquela bela mulher de cabelos negros e longos e a caixa do supermercado sempre gentil e sorridente.

- Mas amiga não fique assim! Sempre tem um bom partido onde menos se espera. Até atrás de você na fila do mercado.

Senti minhas bochechas esquentarem. Certamente estavam vermelhas como as dela, naquela pele branca e delicada com algumas pintinhas que a deixavam ainda mais charmosa.

- Lasanha! Vai fazer no microondas ou no forninho? - Podia ficar calado mas o clima me deixou leve para puxar assunto - Se fizer no microondas a dica são 18 minutos exatos. A borda fica crocante.

Podia ter ficado calado! Mas aqueles olhos negros como duas pedras de druza me deixaram de tal maneira absorvido em sua beleza e encantado com seu jeito meigo de sorrir pra mim.

- Então além de simpático, é um cozinheiro? - Ela tinha que dar mais assunto? Não precisava.

Ela ja tinha as compras separadas em duas sacolas e insistia em não ir embora. Terminei de pagar o que havia comprado e recebido o troco da caixa do supermercado com aquele sorriso maroto.

- Vai pra que lado moço simpático? Gostei da dica de cozinha! - Ela tinha gostado da conversa e admito que também sentia o mesmo.

Só então pude prestar atenção melhor nos detalhes daquela bela mulher. A camiseta com alguma figura sobre uma causa indígena com a gola cortada de forma sem medidas. A saia comprida que ia até os pés calçados num chinelinho simples. E um perfume doce mas marcante. No fone de ouvido insistente que deixava no ouvido direito tocava algo leve que ela assobiava baixinho.

- Quer que eu leve uma das sacolas? - Pedi querendo quebrar o gelo pra conversa, sendo educado apesar da timidez não me permitir tanto.

- Simpático e gentil. Um bom rapaz. Mas me fale mais sobre cozinhar. 18 minutos e a borda fica crocante você diz?

- Exatamente. Fica mais delicada e com aquele gostinho diferente. Aquela sensação de "croc" sabe?

Seguiram-se uma série de perguntas básicas e necessárias de apresentação. Desnecessárias, não fosse o interesse estampado na cara dos dois.

- E o seu signo. Posso saber? - Perguntei. Ainda não entendo bem esse apego em astrologia. Porém é uma fonte interessante de observação e análise.

- Sou de Sagítário. Não que isso mude alguma coisa. Por que? Qual o seu? - Foi a resposta automática dela. Mostrando desinteresse porém querendo saber o meu também.

Mal sabia ela que isso é uma mecânica de conquista de minha parte. Conhecer bem a astrologia que em geral define um pouco quem somos. E mostra em geral nossas qualidades e defeitos.

- Nossa! - Comecei fazendo aquela cara de quem esta pensando, mordi o labio inferior e fechando o olho esquerdo pra dar ênfase e charme ao momento - Uma mulher cheia de positividade, sincera e simpática. Bom humor. Mas um pouco descuidada e inquieta. Aposto pela camisa e pela saia que gosta de viajar, de aventuras e liberdade. E que gosta de ser compreendida quando fala.

- Uau! Um homem que conhece uma mulher de sagitário - Disse ela após tirar o fone de ouvido, que havia confidenciado que vinha ouvindo Beirut e dar uma coçadinha no brinco de pena que usava - Fiquei surpresa agora.

E aquela conversa seguiu por mais três ou quatro quadras. Ou dezessete talvez. Tínhamos perdido o sentido e a noção do tempo e espaço. Nos despedimos na esquina da rua que ela mora e eu segui em frente por mais duas ruas com ela dizendo:

- Não esquece! 8 horas em ponto. Vou deixar pra preparar a lasanha só quando você chegar. Vamos ver se o rapaz também é cavalheiro e pontual?

A conversa tinha ficado boa demais. Eu havia prometido comprar uma outra garrafa de vinho se ela me convidasse pra jantar. Ela devia estar pensando o mesmo, pois concordou na hora, mas não sem antes me fazer prometer que levaria junto o chocolate que havia comprado. A noite seria longa. E mal sabia eu que estava prestes a me apaixonar perdidamente aquela noite, deitado na rede na varanda da casa dela, ouvindo Chico Buarque, fumando nossos cigarros e rindo até morrer.

...

Um comentário: