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Um banho. Uma corrigida intencional na barba. O desodorante e um pouco de perfume atrás do pescoço e no peito. Uma camiseta preta passada e uma bermuda clara. Um chinelo nos pés. E o pensamento distante naquela mulher que mexeu comigo há uma hora atrás. Uma bela mulher de cabelos negros soltos a meia altura nas costas e sua forma de olhar de lado despreocupada. Aquele rebolado discreto e singelo, marcante com os passos cadenciados e delicados mexeram mesmo comigo. Ela deve ter uns anos a mais que eu e isso me deixa ainda mais excitado.
Eu ja havia prestado atenção nela mas nunca tive o prazer de conversar ou de puxar papo e justo numa fila de supermercado isso acontece tão naturalmente?
Juntei as sacolas com aquele vinho tinto de nome diferente e com sabor doce conhecido, o chocolate branco com cookies e uns temperos de minha horta particular. Alecrim, salsinha e cebolinha para preparar um arroz leve e cheiroso pra acompanhar a lasanha que seria nosso jantar.
- Espero que ela tenha queijo em casa! - Pensei alto comigo mesmo.
Ao sair de casa fui presenteado com um quadro digno de um fundo de tela do windows. Um céu em tons misturados de azul, vermelho e amarelo. Um mundo em sépia em contraste com as nuvens que algumas horas atrás deixavam tudo tão triste e sem graça. Ou seria eu que estava gostando do clima de paixão que me envolvia e me deixava com as mãos suadas?
Pontual até demais. Devo ter chego a casa dela 10 minutos adiantado.
Estava sentada no meio fio da calçada tão bela com aquele cabelo bagunçado e os pés descalços. Pisava na barra da saia comprida sujando-a com a terra da rua. Brincava com um poodle branco saltitante e divertido com um lacinho rosa na orelha direita. Sorria com a doçura e inocência de uma criança. Queria ficar de longe apenas admirando-a, mas pareceria um idiota parado no meio da rua faltando apenas o nariz vermelho de palhaço. Preferi seguir e chegar mais próximo daquela bela criatura.
- Olá! Pontual então. - Um cumprimento sonoro, num tom de voz grave. Um sorriso alvo como a pele. Um olhar meigo de baixo para cima com aquelas sobrancelhas arqueadas. Um cigarro na mão esquerda. E aquele jeitinho encantador.
- Olá! - Respondi prontamente. - Pontual com certeza. Mas vejo que não acreditava tanto em minha pontualidade. Eu vim todo cheiroso pra jantar com você e nem banho tomaste ainda?
- Não tive coragem de desperdiçar o show de cores que Deus preparou pra este final de tarde. E minha cachorra precisava correr um pouco na rua. E, eu pensei em outra proposta! - Me olhava com aquele narizinho fino torcido. Ela estava querendo jogar. Dava pra ver nos olhos dela as intenções e cada movimento que pretendia naquele tabuleiro. E podia jurar que via os dados de seis faces em suas mãos. - Já que entende de cozinha, ela é toda sua hoje! Enquanto tomo banho você prepara o nosso jantar.
- Combinado! Eu pensei na mesma proposta. Eu cozinho e você não atrapalha. Pode ser? Tem algo que você não goste? - Ri. Tímido. Decidido a entrar no jogo.
- Não gosto de comida queimada. - Gargalhamos com prazer e esse clima iluminava e envolvia ainda mais aquele fim da tarde.
Estendeu-me a mão pedindo ajuda pra levantar. Baguncei seu cabelo, xinguei-a com delicadeza brincando de ser mal educado e estiquei a mão pra ajuda-la. Ela aproveitou o momento pra me abraçar delicadamente e colar um beijo em minha bochecha. Ela pegou as sacolas de minhas mãos pra guardar o que trouxe. Sentei na calçada ao lado de onde estava pra brincar com a cachorrinha. O clima estava bom. Voltou arrastando os pés e ainda pisando na barra da saia com duas cervejas e vinha seguida de música tocando la dentro. Falava de sonhos, flores, amor, felicidade e nariz. Logo reconheci Los Hermanos. Tínhamos um gosto parecido pra música ou queria me envolver com a letra.
- É linda. - disse eu fazendo um carinho na cachorrinha.
- Obrigada! Você também. - respondeu.
- Falava da poodle por enquanto.- Mais uma gargalhada alta. - Mas você também é linda! - Ela já podia parar de ser tão encantadora.
Seguiram-se outras risadas e entre um gole e outro de cerveja foram se desfazendo curiosidades. Ela tinha 10 anos a mais que eu. Vai ver por isso me agradava tanto. Era divorciada e ainda sem filhos. Gostava de boa música, vinhos, literatura e arte. Enquanto eu gostava de rock n'roll, internet e jogos de video-game. Trabalhava com um negócio próprio e prospero que demorou uns tantos anos pra construir. Eu, no calor de uma fábrica produzindo geladeiras. Ela tinha um carro próprio e não tinha medo de ser feliz. Eu andava de ônibus e reescrevendo os planos pro futuro. E os dois moravam sozinhos. E tinham os corações despreocupados com a vida. O clima se adensava e quase dava pra senti-lo em nossas mãos.
- Minha cerveja acabou! Vamos entrar? Você cozinha e eu vou pro banho. Que tal? - Sagitariana com certeza. Voz de ordem e insegurança numa mesma frase.
Uma bela casa. Um jardim bem cuidado com um gramado verde e flores vermelhas na frente. De janelas altas e rústicas pintadas de maneira despreocupada. Uma árvore alta e frondosa daquelas que da vontade de subir e fazer uma casinha e passar o dia lá em cima. A poodle deve ter gostado de mim porque ficou comigo em volta dos pés enquanto caminhava e recebia carinhos em troca. Entramos pela porta de trás onde uma rede amigável se estendia convidativa pro quintal. Uma cozinha prática e simples com uma mesinha retangular no meio, quatro cadeiras em volta e uma cesta com frutas da estação sobre um paninho de renda. A geladeira com imãs coloridos das viagens que deve ter feito e uns bilhetinhos com mensagens de positividade. Uma salinha com um sofá pequeno e muitas almofadas pelo chão sobre o tapete fofo. Na estante um rádio ligado que tinha levado música até la fora anteriormente e abaixo uma coleção sem número de discos os quais descobriria depois que iam de Roberto e Erasmo a Mutantes e Rolando Boldrim encimados por uma coleção de livros interessantes e outros divertidos. Ela era uma pessoa inteligente também.
- Eu vi que você veio preparado pra cozinhar algo bom. Trouxe temperos. Um homem prevenido ou está querendo me conquistar! Guardei o vinho na geladeira e escondi o chocolate. - O ultimo comentário seguido de um sorriso safado de canto. - Vou pro banho e a cozinha é sua. Precisa algo?
- A principio, alho, cebola e queijo. Só isso. - Respondi enquanto pensava no que iria preparar.
Fui apresentado a cozinha e seus habitantes. Eu estava parado ao lado da pia perdido como uma criança no primeiro dia de aula enquanto ela dançava um balé naquele palco e toda vez que passava por mim fazia questão de tocar em minha cintura ou respirar o meu perfume cuidadosamente espalhado em meu corpo. Trocou a música, escolhendo algo mais alegre pra tocar. Ouvi um "psiu!", recebi um beijo soprado de longe seguido de uma piscadinha singela com o olho direito. E se foi pro banho
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Adorei tambem!!!to curiosa pra ler o capitulo 3
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