Sobre aqueles cabelos vermelhos...

Era noite. Era madrugada. Era fria. Um silêncio longo dava o prólogo de um inverno que se estenderia. O sono não havia tomado conta ainda e a vontade de um café e companhia para um bom papo eram mais fortes. A ansiedade e o desejo de algo mais, falavam alto na mente e no coração. A cabeça vinha de dias de depressão forte novamente e o trabalho andava por demais cansativo e exigente nesses dias de um começo de Junho.

O som do chuveiro indicava um banho tranqüilo, cheiroso, com calma e com toda a delicadeza pra lavar a alma. Roupas leves e um breve arrepio ao toque delas no corpo quente saído do chuveiro. Uma borrifada de perfume pra melhorar o clima e o ambiente. Um moletom macio e aconchegante e o capuz na cabeça porque a rua o aguardava gelada. Uma olhada no celular verificando as atualizações do fim de noite. Ele ainda esperava uma luz. Ele adoraria a companhia de alguém. A companhia dela.

Alguém online e disposto a acompanhá-lo naquela maluquice? Quem sai na madrugada fria pra tomar café e ficar jogando conversa fora num posto 24 horas? Mais uma verificada no celular e um desejo de bom dia acompanhado de um convite pra acompanhá-lo despreocupadamente, praquela que bagunçava sua cabeça e coração atualmente. Ela veria pela manhã e certamente colocaria um sorriso naquele rostinho belo e naqueles olhos que tanto o deixavam hipnotizado. Certamente falaria de inveja pelo café e pelos pães de queijo. Mas iria sorrir prometendo companhia na próxima vez.

Escovar os dentes. Chaves e dinheiro no bolso. Um tênis confortável. Os fones no ouvido. Um podcast sobre assunto qualquer. O som nos fones servia mais como companhia e acalento do que como distração. O silêncio na rua era enorme, quase palpável. Não havia vivalma aquele horário. Era o seu momento e a solidão era só sua. Sentia prazer naquelas ruas vazias. Sentia a escuridão e o frio tomando conta de seu corpo. Um arrepio percorreu sua espinha. Encolheu os ombros e esfregou as mãos procurando em algum átomo do corpo um pouco de calor.

Uma mensagem recebida com um aviso sonoro o assustou naquele silêncio todo. Era um bom dia acompanhado de um sorriso. Era dela. O coração disparou e bombeou mais sangue para o corpo deixando seu rosto ruborizado. A mensagem dizia que também queria café, e que era pra ele buscá-la em casa. Estava vestindo algo mais quente. Prometeu estar pronta em dez minutos.

Momentos como esse são raros e tem que ser aproveitados por completo. Não pensou duas vezes. Respondeu a mensagem dizendo que estava indo. Esperaria na porta sem tocar o interfone pra não acordar ninguém. Ela ainda morava com a mãe e a irmã. Ele estava apaixonado de forma utópica e agora ainda encantado com a companhia inesperada. Era um sentimento bom e doce. Era uma luz no fim de um túnel longo e cansativo.

A caminhada até a casa dela era curta e rápida. Meia volta e estaria lá. Moravam próximos a poucas quadras de distância. Ela estava linda com uma touca na cabeça escondendo o vermelho dos cabelos pintados e aquele sorriso iluminado no rosto, um cachecol ao redor do pescoço e quilos de casacos pra espantar o frio. O olhar era doce como sempre. Vê-la, iluminava o dia até agora escuro. As mãos no bolso fugindo do frio e a fumacinha que fazia enquanto falavam davam um tom divertido na conversa que se estendeu pelo caminho. Era bom falar com aquela garota. Ela tinha segredos e histórias para contar. Ela tinha medos e sonhos. Combinavam nas conversas e nos sorrisos. Entendiam as referências. Compreendiam o sarcasmo um do outro. A noite ainda iria longe. Ambos sabiam disso.

Ketchup, maionese ou condimentos dispensados. O básico e simples os agradava. Um cappuccino acompanhado de pães de queijo. A conversa fluía de forma leve. Entre sorrisos e provocações tudo parecia mais fácil. Os dois gostavam de observar o cotidiano e falar mal do que lhes parecia engraçado e divertido aos seus próprios olhos. Riam e encontravam em seu pequeno mundo graça de tudo na vida. Sabiam compartilhar essas bobeiras. Pareciam duas crianças. Sabiam rir das pequeninas coisas.

A conversa levou para as preocupações e medos. O stress do dia a dia. Ela reclamando dos problemas e preocupações tão recorrentes na família, em casa e no trabalho. Falava de algum de seus alunos e as dificuldades que tinham. Falava dos planos e desejos que tinha pra desenvolver e fazer um pouco mais. Ele por sua vez ouvia cada palavra admirando o movimento de sua boca e o balanço de suas sobrancelhas. Ele adorava admira-la. Ele amava aquela menina de cabelos vermelhos.

Risadas eram sonoras durante as conversas daqueles dois. A sintonia era incrível. O sarcasmo era notável em todos os detalhes, e os dois eram sagazes nas observações. Era gostoso de vê-los juntos. Era algo como uma musica romântica tocada num volume baixo. Era notável o brilho nos olhos dele enquanto olhava pra ela. Era de verdade aquele sentimento. Ela era de sagitário. O ariano que vive dentro dele era apaixonado por cada detalhe daquela moça.

Iriam pedir mais um café. A noite estava boa e o clima no posto era ameno. Havia um calorzinho gostoso naquele lugar que pedia pra ficar um pouco mais. Lá fora estava frio. E o papo havia tomado um rumo tão bom. Ela já havia falado do dia e dos problemas. Ele por sua vez havia feito as reclamações básicas. Já haviam passado pelas dores e agora vinham as histórias e lembranças. A conversa sempre fluía facilmente mesmo porque tinham muito pra contar um ao outro. Tinham sonhos e desejos parecidos. Gostavam de cinema e boa musica. Gostavam de silencio e tranqüilidade. E ele adorava aqueles olhos.
Um chocolate pra adoçar a vida. Os capuzes de volta na cabeça e a noite ainda mais fria os aguardava. A caminhada seria boa e daria calor e animo pra noite de sono porvir. Era sempre bom estar na companhia daquela garota. Ela aquecia seus pensamentos e seu coração. Ela sabia como fazer um carinho e um afago na alma por vezes cansada e estressada dele. Ela sabia dizer as coisas certas pra deixá-lo ainda mais apaixonado.

A porta do condomínio dela já era vista de longe. Ela estava com frio e agarrou o braço dele se aninhando numa caminhada abraçada. Queria a proximidade dele pra se esquentar. Queria um chamego e um pouco de carinho também. Era boa aquela companhia. Era agradável aquele momento aos dois. A caminhada era lenta. Parecia aos dois haver o desejo de estender um pouco mais pra noite não acabar. Mas ela tinha que trabalhar assim que o dia clareasse. Ela precisava dormir. E a noite era fria pra ficarem na rua por mais algumas horas. Ele queria ficar em seus braços e abraços por mais uma hora ou duas, mas poderia ficar pra outro dia. A despedida sempre é gostosa. E o beijo no rosto sempre inesquecível...

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