Capítulo 04

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Seus instintos lhe diziam que ela era uma mulher em quem podia confiar. E notava-se nos olhos dela esse sentimento recíproco. Que não importava o que lhe dissesse, ela o apoiaria, guardaria seus segredos e nunca usaria o que sabia para magoá-lo.

- O que te comove? - Veio uma pergunta certeira como ponta de flecha daquela atraente boca carnuda. Ela estava curiosa no rapaz até então tímido e sério a sua frente. - Te faz feliz, sorrir, agradecer a Deus por mais um dia vivido?

- Simplicidade! O cabelo ao vento. Os pés no chão. O sorriso de uma criança. Um sorvete no final da tarde. Passear de mãos dadas. Isso tudo me comove. - Respondi dando uma tragada em meu cigarro. - E você?

- Não sei mais explicar o que me comove. São tantos anos vivendo e aprendendo. Foram tantos amores e desamores. Mas se fosse pra falar algo que me comove são os momentos. - Soltei a fumaça de minha tragada prendendo a atenção em cada palavra que ela pronunciava. - Não exatamente os momentos. Mas o que tiramos de bom deles.  Um relacionamento por exemplo. Ouço muitas amigas reclamando que o fulano foi um idiota, um grosso, um estupido. Mas nunca lembram que elas mesmas se divertiram tanto. A pessoa saiu como nunca antes, bebeu durante noites intermináveis, viajou à lugares diferentes, dançou até cansar os pés, conheceu novos amigos e apaixonou-se perdidamente. Nada na vida é eterno. Então se tem algo que me comove é justamente o que estamos fazendo aqui. Vivendo um momento. - Ela tinha um jeito irritantemente gostoso de olhar de ladinho com aquele par de jaboticabas maduras que possuia no lugar dos olhos.

Como uma poesia de Drummond a conversa foi se desenrolando. Desenrolaram-se segredos e detalhes sobre a vida e as paixões de outrora. Intrigas, sonhos e medos foram citados na conversa. Tentamos entrar no assunto família, mas paramos com a mesma velocidade que começamos. Deixamos a curiosidade nos direcionar. A lajota fria começava a incomodar um pouco, e ela também notou essa sensação.

- Posso fazer uma proposta? - Perguntei calmamente.

- Eu aceito. - Respondeu ela sem titubear e me deixar terminar a pergunta com aquelas sobrancelhas arqueadas e um olhar safado e sorridente. Os dois desataram a gargalhar. Levei a mão esquerda ao rosto balançando a cabeça em tom de vergonha e descrença com a resposta imediata.

- Talvez, não fosse exatamente isso, que eu tinha em mente agora. Mas ia propor fazermos um bom uso dessa rede. Ou um dos dois pelo menos. O chão ta me deixando com a bunda quadrada!

- Tenho uma cadeira bem confortável que pode ser usada por quem for ficar de fora então. - Falou em um pulo, ficando de pé e saiu saltitando outra vez daquela forma infantil.

Levantei e puxei uma mesinha que vi de canto pra junto de nós. Uma mesinha de vime envernizado com um dragão entalhado na tampa coberto com uma placa de vidro. Uma obra de arte. Coloquei as taças e o vinho sobre a mesa e me atirei sem compromisso naquela rede branca deliciosa e convidativa. Dentro haviam duas almofadas fofas com o perfume delicado e marcante dela. Na verdade eu já confundia o perfume em mim ou nos objetos dela. Ou mesmo se era o clima de paixão que tomava conta do ambiente.

Da sala agora vinha um som diferente de bateria e guitarra um pouco mais alto que lembrava um grunge distorcido. Não soube identificar inicialmente. Mas devia ser uma coletânea com várias bandas. Ela estava apimentando o clima e deixando a brincadeira mais interessante. Estava entrando em meu mundo. Ou me levando pro dela.

- Ee arruurraa - Ouvi ela tentando dizer algo ou pedir ajuda provavelmente, com a barra de chocolate na boca e a cadeira almofadada nas mãos saindo pela porta da cozinha. Prontamente me pus de pé e fui ao seu encontro auxilia-la. Uma bela cadeira de vime, de forma oval confortável e preguiçosa em seu formato se comparada a rede onde antes estava. - Obrigado! - Disse, agora sem o chocolate na boca e já atirada na rede onde antes eu, achava que ficaria. - É minha cadeira de leitura. Fica no meu quarto pra espreguiçar e roubar minhas ultimas energias no fim do dia! É uma delícia. Fique a vontade.

- Vamos ver se é mesmo gostosa?

- Sou sim. - Respondeu piscando o olho direito pra mim, mais uma vez me deixando sem palavras e rindo de forma irônica. Definitivamente uma mulher que sabia aonde queria chegar.

E sentou, balançando-se naquela rede. Parecia uma criança com um sorriso fácil no rosto. Uma alegria contagiante. Com os pezinhos balançado levemente em minha direção. Balançava a cabeça com os olhos fechados e os cabelos soltos e bagunçados jogados pra trás de forma preguiçosa a estalar o pescoço. Os braços abertos mostrando ainda mais sua bela silhueta de mulher madura e perfeita. Soltei os chinelos ao pé da cadeira e me sentei bem próximo da rede em posição de lótus ficando bem confortável e ainda na mira dela. Ela parou o balançar e apoiou os pés na cadeira pra ficar mais próxima de mim, me provocando ainda mais ao baixar-se pra pedir sua taça com um sinal de olhar. Fiz questão de aproveitar o momento e mostrar que também estava afim de me atirar de cabeça naquela brincadeira, aproximei meu rosto do dela encostando as bochechas e beijando sua face macia. Recebi um beijo apertado em troca. Enchi as taças com mais vinho para dois. A primeira garrafa chegava ao fim.

Um brinde, um sorriso e um pedacinho daquele chocolate branco entre os dedos entregue em minha boca.  Fiz questão de tentar morder os dedos também, sem êxito. O clima estava ficando sensual e ainda mais interessante. A conversa tomou um rumo mais filosófico e intimo típico dos que começam a beber um pouco demais. Mas era a primeira garrafa apenas? Era alguma coisa no ar que chamava os dois àquele papo tão bobo e desnecessário, ou eram as bocas que já exigiam que se fizesse silêncio em um beijo demorado. Eu sentia o sangue mais rápido em minhas veias. Aquela sensação pesada nos ombros. E aquele perder de vista sem saber onde fixar o olhar.

- Eu não sei como alguém consegue fechar a janela sem observar os tons do céu. Eu adoro quando é fim de tarde e as nuvens ficam meio rosadas, acho lindo. Me dá uma paz grande, daquelas que chegam metendo o pé na porta do coração, sem bater nem nada. - Puxou o assunto ela de novo, com um meio sorriso mordido nos lábios.

- Pois eu já me dei conta de que as pessoas vivem sempre a esperar por algo, e quando surge uma oportunidade, se dizem confusas e despreparadas. Sentem que não merecem. Que o tempo certo ainda não chegou, mas a vida passa! - Continuei, engatando um papo-cabeça. Me recostando sobre a fofura daquela cadeira. Tentando quebrar um pouco o clima que tinha se criado e deixar mais leve a conversa novamente.

- Exatamente. Os momentos se acumulam. Não aprendemos a viver, a arriscar por aquilo que queremos, a sentir aquilo que sonhamos, e assim adiamos nossas vidas por tempo indeterminado, até que ela decida por nós naturalmente e só então percebemos o quanto perdemos e o tanto que poderíamos ter evitado. Como diz o poeta: "Há pessoas que entram por acaso em nossas vidas, mas não é por acaso que elas permanecem." - Engatou ela me deixando com o fio da meada para continuar. Era um desafio filosófico que poderia enveredar para as curiosidades. Onde chegaríamos eu não sabia. Entre as tragadas e baforadas de um cigarro e outro, cubinhos de chocolate e goles de vinho nós fomos. E eu aceitei o desafio.

- O bom mesmo é quando descobrimos alguém que nos acalma e também nos tira o sossego. - Provoquei.

- E eu acho que se ficarmos maduros demais, a gente cai. Já dizia Cazuza. - Ela estava numa mesma sintonia e eu tentava acompanhar. 

A conversa seguia de uma forma clichê e divertida. Perdida entre autores conhecidos, desconhecidos e os de boteco de esquina com cheiro de pinga e ovo rosa sobre o balcão. Sobre cores e sabores. Sobre formas e deformidades. Nas entrelinhas o destilar de veneno falando mal de alguém. Tudo era motivo pra  arrancar sorrisos e devaneios sobre a possibilidade de uma felicidade utópica. E a cada instante eu me sentia mais a vontade na companhia daquela mulher que apareceu sorrindo numa fila de supermercado com aquele sorriso irritantemente gostoso.

- Vou pegar a outra garrafa de vinho, dessa aqui sobraram apenas as recordações, o perfume e o casco vazio. - Ela concordou com um aceno de cabeça e a boca cheia de chocolate. Me levantei e rumei a cozinha, descalço mesmo. Com o coração batucando como uma escola de samba em plena avenida. Não tinha mais como fugir. Tava começando a dar medo. Ela devia estar com medo também. Gostar é começar o inferno tudo de novo. Mas ela, já tinha dito que topa. Topa começar tudo de novo. E eu também.

Aproveitei pra ir ao banheiro e lavar o rosto e ver meus próprios olhos refletidos. Um banheiro de menina mesmo. Sabonetes redondos pra higiene, cremes os quais a metade não saberia pra que servem, tapetes com flores rosas e potinhos de flor na janela. Cada coisa em seu lugar com um toque sutilmente feminino.

Eu que já havia me fechado em um mundinho de amigos e finais de semana em casa sentado em frente do computador, estava novamente me deixando conquistar e pisar nesse mundo chamado paixão. Porém, sabia e já me conhecia muito bem. Seria eu mesmo todo o tempo. Não deixaria que a emoção levasse embora meu cavalheirismo e o prazer de brincar com os sentimentos pra deixá-los sempre melhor pra segunda experiência. Aprendi cedo que, como um garoto virgem, o gosto é melhor quando deixamos as melhores experiências um pouco pra amanhã. Um beijo pode acontecer. Mas o sexo pode ser deixado primeiramente pro pensamento e só então pro corpo. O desejo aumenta com a expectativa. E aquela mulher definitivamente estava me deixando com essa vontade louca.

Ao sair da cozinha, com a garrafa de vinho em mãos, senti falta da cadeira, onde antes estava sentado.

- Você demorou! - Ela tinha escondido a cadeira enquanto demorei, me convidando logicamente pra ficar junto na rede. - Já estava com saudades. - Mais risos. Cruzei os braços, com um olhar repreendendo atitude sem nada falar, mas com vontade de pular naquela rede junto dela.

- Desculpa. Fui ao banheiro. Por isso a demora.

- Já que demorou, e, sua cadeira desapareceu misteriosamente, você, podia deitar comigo aqui na rede né? Eu to mesmo com uma vontade de um abraço teu! - Disse ela muito lentamente com pausas estratégicas de menina que não fez nada, novamente com aquele sorriso maldoso e maroto no rosto e aquelas sobrancelhas arqueadas.

Sentou-se de lado pra me deixar sentar junto. Puxei a mesinha mais próximo da rede e repousei a garrafa de vinho aberta sobre. Sentei na rede, ajeitei as almofadas atrás de mim e me coloquei de forma que pude abraçá-la pelas costas, estiquei as pernas e nos deitamos de forma carinhosa. Ela ajeitou os cabelos com as mãos enrolando-os sem simetria sobre o peito e deitou a cabeça de um jeitinho carente e inocente sobre meu ombro direito. Os dois estavam assim entregues aos perigos e possibilidades que os amantes correm quando se aproximam demais. 

E o melhor do abraço é a sutileza dele. A mística. A poesia. O segredo de literalmente aproximar um coração do outro pra conversarem no silêncio que dá descanso à palavra. O silêncio onde tudo é dito sem que nenhuma letra precise se juntar à outra. O melhor do abraço é o charme de fazer com que a eternidade caiba em segundos. A mágica de possibilitar que duas pessoas visitem o céu no mesmo instante. E o mundo podia terminar naquele momento onde os dois estavam entrelaçados. E ela ainda brincava com os dedinhos delicados em meus pés, num carinho quase imperceptível. Mas não terminaria ali. Mesmo porque estava apenas começando.

- Geralmente é nesse momento que as pessoas se beijam nas histórias né? - Provoquei ela, ainda deitada deliciando-se no meu abraço e curtindo o meu ombro.

- É mesmo? Desculpa. Não lembrava dessa parte.

E virou-se ainda em meus braços, numa posição de lado confortável aos dois, e colou os lábios nos meus em um beijo calmo e macio.

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