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Três dentes de alho, uma cebola, descascados, picados e reservados. Uma xícara de arroz. Água fervendo. O calor da chama no fogão esquentando o fundo da panela com um fio de óleo de soja. Primeiro dourar o alho e a cebola pra soltar o sabor e juntar o arroz pra fritar e ficar soltinho. Juntar a água fervida e deixar cozinhando até secar. A lasanha exatamente colocada conforme proposto no microondas com 18 minutos programados.
O som delicado de água caindo vinha da porta ao lado da sala. O perfume do shampoo dava pra sentir de longe. Ela assobiava com prazer cantarolando a música que tocava. Ouvia-se uma melodia com guitarra marcante e a voz grossa facilmente identificável de Audioslave. A música e os aromas doces do banho criavam uma atmosfera sensual e ao mesmo tempo romântica.
Os minutos se passaram lentamente. E os pensamentos rápidos demais na cabeça. O clima de romance se adensava em minha volta.
Com uma toalha que havia deixada separada pra mim, arrumei a mesa com dois pratos e talheres separadas ao lado direito. Coloquei a fruteira sobre a pia de mármore impecavelmente limpa. Encontrei taças de vinho no armário de canto e as deixei sob a mesa junto aos pratos. Terminei de picar os temperos verdes que havia trazido de casa e os separei reservados juntamente com três fatias de queijo mussarela que havia cortado a grosso modo pra dar uma cremosidade e consistência a mais no arroz. Preparei também uma salada verde com algumas folhas de alface e um pepino que encontrei na geladeira, temperados com limão e sal.
Senti um perfume no ar e fui surpreendido com um abraço pelas costas. Um arrepio gostoso tomou conta de mim subindo pela coluna. Senti aquele toque leve da maçã do rosto dela em meu ombro e a forma arredondada dos seios perfeitos. Senti suas mãos me apertarem calmamente o peito em um movimento quase imperceptível. Eu fiquei estático e sem saber o que fazer. Senti as bochechas queimarem. Não queria me mexer pra não interferir naquele momento suave. Cruzei os braços sobre o peito e toquei as mãos dela em resposta ao carinho. Acaricei-as com os polegares calmamente. Tive vontade de puxá-la num abraço mais apertado e beijar-lhe ali, naquele momento, mas preferi esperar um pouco mais.
- O cheiro está bom. - Disse ela cortando o clima tenso.
- Arroz pra acompanhar a lasanha que está quase pronta. Aceita uma taça de vinho pra abrir o apetite? - Perguntei querendo me desvencilhar daquele corpo que me provocava. Aqueles lábios me atentavam ao crime.
- Aceito! - Respondeu. Ganhei um beijo na nuca e fui libertado daquele abraço, não sem antes receber um beliscão carinhoso na cintura. Ela havia posicionado os peões no tabuleiro. E me convidava a jogar. A timidez era maior do que a vontade de esquecer aquele jantar.
O aroma adocicado do vinho em duas taças se misturou ao perfume daquela dama e a fragrância alquímica de arroz com alecrim. Era a primeira vez que ele se via sozinho em frente a mulher em meses. Ela ficou encostada na pia. Vestia uma blusinha amarela apertada de alcinha que realçava ainda mais sua silhueta e um shorts de tecido leve e branco que fazia contraste com as belas pernas. Estava descalça e só então pude observar uma tatuagem de ramos e flores que subia pela coxa esquerda. Mostrava os belos e finos pés adornados com uma fita de sisal e um pequeno búzio. Aqueles olhos devoradores me examinavam minuciosamente, como um falcão, enquanto eu terminava de cozinhar.
Desliguei o arroz. Acrescentei as ervas e o queijo. Misturei-os bem e tampei. Deixei o calor completar a receita. Retirei a lasanha do forno e a coloquei sobre a mesa. A fumaça que subia em espirais era agradável de observar e de sentir o aroma. A noite estava apenas começando.
- Vamos sentar la fora. - Disse ela com um prato servido e uma taça de vinho na mão. - Não quero comer aqui na cozinha.
Assenti com um movimento de cabeça. Servi um prato pra mim também, completei minha taça de vinho e a segui porta afora. Ela parecia uma criança. Sentada no chão da varanda com os pés esticados e os joelhos colados com o prato sobre o colo. O cabelo bagunçado enrolado de qualquer jeito jogado do lado direito do corpo me convidando a sentar-me do seu lado esquerdo. A poodle que mais parecia um pedacinho de nuvem, brincava sapeca com uma bolinha roxa logo a nossa frente.
Seguiu-se uma conversa sobre desejos e prazeres de criança. Correr descalço e sentir as pedras no chão. Tomar banho no rio. Brincar de esconder. Entrar em casa quando a mãe chamava. Lamber a colher de bolo que a mãe fazia. E ela falava de boca cheia sem vergonhas ou pudores. Ela sorria com prazer quando tinha um desejo em comum pra compartilhar. E era do tipo que falava com gestos. Me tocava ou apertava meu braço quando vinha uma lembrança. Ela era perfeitinha demais pro meu gosto. E isso estava me assustando. Afinal tanto tempo sozinho e em algumas horas alguém consegue me conquistar e me deixar tão leve. Sentia vontade de abraçar e beijar aquela mulher. Mas também me deliciava em observar e admira-lá.
- Engraçado como são as coisas. Um dia tão chato, nublado e sem graça pode se tornar numa noite tão iluminada mesmo sem a lua dar as caras no céu. - Olhei-a de lado usando as mesmas armas. Tentei voltar a conversa pro nosso jogo pessoal. Queria saber até onde ela estava disposta a desafios.
- A noite é uma criança, como se diz. Somos nós que a iluminamos. - Recebi um cafuné na cabeça. Nossos pratos estavam vazios e as taças de vinho também. Levantou-se. Pegou os pratos. Saiu dançando e brincando com aquele jeito infantil. Demorou-se um pouco e dessa demora notei os primeiros acordes de Chico Buarque vindo baixinho da sala. Voltou com cigarros e a garrafa de vinho. Eu brincava com a poodle. A bolinha que tinha deixado ao meu lado recebeu um chute dela e a poodle saiu em disparada atrás. Peguei o vinho. Prontamente enchi as taças enquanto ela acendia um cigarro. Esticou e deixou-se apoiar sobre as mãos satisfeita com o jantar. Um suspiro longo e aconchegante tomou conta de seu peito. A conversa seria longa ainda e ela também sentia que iríamos ver o sol nascer juntos. Entre cigarros, mais vinho e chocolate. Aquela rede ainda nos aguardava. E o tapete da sala com aquelas almofadas convidativas.
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Estou aqui "devorando" os capítulos de tão curiosa que to :P
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