Belém de Hedilamar
O numero do dia não combinava com o que eu queria, eu queria mesmo era ver refletido em seus olhos um horizonte em fogo, onde o sol pela metade ainda brigava em vão para não despencar de vez nas águas do Guajará. Mas foi em vão a minha espera. Até o tempo foi em vão. No céu; em cima; parecia a tela de um pintor maluco, que alucinado misturava tintas sem fim que queriam explodir numa orgia de cores de rara beleza, mas a mistura só dava uma cor transparente... de água... de chuva.
Não passou nenhum moleque gritando "Tapioca!" ou "Pupunha cozida!". Ah! Belém! Belém de um sonho chamado Hedilamar. De um remédio que meu psicólogo vai ter que mudar a receita. Imaginava eu, nós dois, num fim de dia, passeando na Presidente Vargas, as cigarras da praça já teriam silenciado nas mangueiras. Ah! Belém do cheiro cheiroso do uxi maduro, com gosto de tapioca molhada no leite de coco. Belém da espera por este domingo onde pude olhar sem parar para estes teus olhos cor de açaí. Belém das chuvas com hora marcada. Não marcam o dia não? Das mangas de cheiro que a gente junta das calçadas e come com farinha d'água bem torradinha. De ti, Belém, não tenho mágoas, aqui eu sou feliz, aqui eu aprendi o que é a verdadeira felicidade numa espera que eu achei que seria eterna. Aqui eu encontrei a minha alma gêmea. Talvez ela não tenha notado, mas assim será.
Ah! Belém! Que me ensinou a ser paraense desde pequenino, aqui eu aprendi tudo de novo. Só que eu mais queria aprender era amar e ser amado, mas não saio magoado não. Fui feliz na espera e não fiquei infeliz. Só aumentou a minha felicidade. Eu amo mesmo e vou amar sempre, mesmo sem nada haver em troca, a não ser algo especial.
Onde eu estava, o trivial, a normalidade passavam totalmente desapercebidas, mas eu não notava nada ao meu lado. Uma lâmpada em minhas costas teimava em não acender, um cantor rouco tentava "O bêbado e o equilibrista", um cão sem dono era enxotado, uma garrafa caia e eu ali admirando aquele belo par de olhos cor de açaí. Cheirava maniçoba, pato no tucupi, tacacá e vatapá mas a gente comia um mixto quente, tomava guaraná e coca-cola. Uma chuva fina, rala, caia de graça. Deve ser pra lavar a minha alma, meus sonhos ou pra cara da lua, que depois da chuva vai aparecer lá no meio do céu. Aqui do meu quarto vou ouvir o Djavan cantar "Oceano", e vou ficar esperando a lua sair pra torturar meu coração ainda por dias...
Se é verdade que Deus protege os bêbados e as crianças, também é verdade que ele entrega à própria sorte os apaixonados e sem rumo. A noite já rolava seu ultimo ato, e nós dois ali, simples criaturas sem hábitos noturnos, pequenos seres da noite que saem a caminhar de mãos dadas embaixo de uma sombrinha numa noite de chuva, para se conhecer. Íamos aos poucos falando rapidamente em tão pouco tempo o que tínhamos programado falar durante um dia inteiro.
De repente, mais uma vez o relógio nos prega uma peça e lá vamos nós dois de novo para a chuva.
Antes, a conta, dois sonhos de valsa (para que o sonho nunca se acabe). Eu tenho um sonho. Você não? Tem sim...
Encerramos a noite falando sobre liberdade, num certo momento você usou um "te" e engoliu-o.
E lá íamos caminhando meio com medo, você tremendo (de frio?), e eu com um friozinho estranho na barriga (medo?), e nos despedimos assim como havíamos chegado, assim como vampiros fugindo do sol, que nem saiu hoje, para iluminar seus olhos.
Vai ficar uma saudade doida e sem fim desta rua Cezário Alvim, dos versos apaixonados de um poeta assim...
...
Essa poesia é uma parte de um monte de papéis que decidi revirar nesse final de semana.
Vieram algumas boas lágrimas lendo todas as páginas. Sei que é cansativo ler toda ela. Mas fica a primeira parte aqui digitada. Ainda deve ter umas 5 partes iguais a essa pra digitar. Vou colocando com o passar dos dias. Prometo!
- Mas João? Por que as lágrimas?
Porque esses papéis, a letra, e todas as palavras, inclusive o "amor Hedilamar", são tudo do meu saudoso e amado pai. Foi ele que com sua maestria poética escreveu esses trechos apaixonados por Belém e sua Hedilamar.
Espero que todos curtam...
Não consegui segurar as lagrimas... lindoooo...perfeito...adorei!!!
ResponderExcluir