Sobre um abraço...

Ele era um cara simples em uma noite normal de trabalho. Um dia movimentado na lanchonete. O corpo já suado por baixo da camiseta. O cheiro de pão, carne e bacon espalhado pelo ar.

Uma noite de pensamentos turbulentos. O fim de um ano complicado, cansativo, estressante, cheio de danos e perdas. Apenas mais uma noite! Até aqueles cabelos loiros e aqueles olhos cor de mel entrarem no ambiente como um raio de sol num dia de chuva. Com aquele sorriso largo e cheio de dentes.


- Oi! - Veio ela dizendo, sempre tão simples, delicada e encantadora como sempre, deu um abraço que levou toda a tristeza e os problemas junto e deixou aquele homem leve, como se toda a dor tivesse desaparecido com aquele toque sútil. Parecia o remédio necessário para curar toda sua dor. Um abraço que durou a eternidade contida dentro de um ou dois segundos. Um abraço cheio de paz.


Um suspiro saiu longo depois daquele momento e um sorriso se instalou no rosto dele. Aquela noite acabava de mudar por completo. Junto com o suspiro deu pra sentir as bochechas corarem e alguma palavra de agradecimento pôde ser ouvida num tom muito baixo.


Um pedido para comer. Algo para beber. E entre mordidas, um hamburguer foi devorado com a fome e a voracidade de um monstro mitológico no corpo de uma mocinha delicada e bela. E junto com a fome satisfeita, o lanche devorado, ela também acabou por pagar a conta e ir embora. 


- Estava delicioso. Voltarei mais vezes! - Uma despedida também simples e delicada na forma de um abraço gostoso, demorado, como a própria eternidade personificada ali, naqueles dois corpos enlaçados, como se não acabasse nunca mais aquele momento delicioso. Como é bom sentir o carinho sincero de alguém.


Mas tinha algo errado acontecendo!


Tantas lembranças vieram a cabeça dele. Toda a admiração que sempre teve por aquela pessoa vieram a tona no silêncio da noite, deitado na cama lembrando daquele abraço. A doçura da voz dela veio primeiro. Cantando e exercitando a voz, com aquele tom rouco, declamando a poesia contida nas músicas. A sutileza no toque do violão em seguida. A maneira doce como ela bate nas cordas e deixa a música vibrar. Tantas outras pequenas lembranças vieram em seguida. A doçura de pessoa que é. Com a família, com os cachorros, com os amigos, com tudo.


Aquela mulher sempre foi uma pequena fonte de admiração praquele homem. E como pode um simples abraço despertar algo tão interessante e intenso. Ele devia estar confundindo as coisas. Porém aquela confusão era algo sadio, bom de se sentir e viver. Bom para suspirar e acreditar na vida.


Os dias seguiram. Normais. Divertidos. Um pouco mais em paz. Com um pouco mais de fé.


Na calmaria de um dia qualquer, sentado na sacada, entre um gole e outro na xícara de café, admirando o pôr do sol, pegou o celular e ficou admirando aquela mulher. De longe ele via um pouco mais sobre ela nas redes sociais. Queria falar isso pra ela, mas não queria romper a linha tênue e frágil que existe entre a amizade e um tom de conquista. Queria convidar pra tomar um café ou apenas para caminhar e conversar e saber mais sobre ela. Sobre sua fé. Sua família. Seu dia a dia. As canções preferidas. Sobre a mulher frágil e simples demais que aparenta ser, mas apesar disso tudo a mulher forte que deve existir. A beleza em seus olhos. Sua criatividade. Sua voz. Seus olhares.


E uma nova visita se fez. Agora em família. Com o irmão e as sobrinhas. Um outro abraço aconteceu, da mesma maneira delicada e cheio de paz. Um abraço que poderia durar uma eternidade. Aquele corpo pequeno, magro, frágil. Mas com uma força incrivel e cheio de carinho. Ele realmente devia estar confundindo as coisas. Mas parecia que pra ela o abraço também fazia um bem. Dava pra sentir algo recíproco e sincero naquele abraço. Naquele toque carinhoso.


E como é gostoso conviver e observar ela assim. Sorrindo e brincando. Solta e feliz. Com aquela boca cheia de dentes gargalhando na companhia das sobrinhas, que numa frase solta e perdida notou-se um tom de ciumes por causa de um olhar ou algo que aconteceu. E ele riu. E ficou ainda mais confuso no que sentia. Em como olhava para ela.


Era uma confusão completa. Mas era algo bom que ele precisava falar. Precisava expressar a maneira como admirava aquela mulher e toda a sua simplicidade. E quando pensava sobre isso, não estava dizendo que admirava o fato dela ter o Q.I igual ao do Einstein para ser boa companhia, ou que para divertir-se, precisa resolver equações de física quântica.


Não é nada disso, apenas valorizava muito o poder que aquela mulher têm de fazer desejar que a conversa nunca acabe, que aqueles abraços nunca terminem, gerando uma vontade súbita de matar algum cliente quando este chega exigindo sua cota de atenção para atender a próxima mesa. Torcendo para que a noite terminasse logo e o bar estivesse fechando. Tudo isso porque às vezes só quer continuar ali, ouvindo o que ela tem a dizer e agradecendo por esse papo de fluência natural e diferente de muitos outros que escutamos com a cabeça nas nuvens, contando os segundos para fechar a conta e seguir para algum outro lugar e ficar perdido naqueles braços.

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